EPIC5: Qual foi a parte mais difícil?

Qual foi a parte mais difícil? Esta é uma pergunta muito frequente sempre que falo do EPIC5.

E a verdade é que é muito difícil apontar “uma parte” como a mais difícil, ou a difícil.
Toda a Prova é difícil, não tenhamos ilusões.

Por mais que eu conte a história do EPIC5 com um sorriso, ou que faça piadas por entre o relato de alguns episódios mais inesperados, a verdade é que esta é realmente uma prova muito difícil, tanto a nível físico como racional e emocional.

Aliás a prova começa a ser difícil logo no processo de decisão em aceitar o desafio.

Essa fase inicial é difícil essencialmente porque temos que nos assumir com coragem perante um compromisso que na verdade desconhecemos na totalidade. E o desconhecido torna tudo mais difícil. Depois, nem todas as pessoas que nos rodeiam entendem facilmente a decisão de participar em algo como o EPIC5 e temos que, em muitas ocasiões deste processo de decisão, suportar “sozinhos” o ónus das resoluções que tomamos e tentar explicar as nossas razões (que em muitas nuances nem eu próprio entendia totalmente).

Depois vem a parte difícil de ter que encontrar “financiamento” para uma aventura destas. Uma aventura que não é propriamente “barata”.

E até termos esse patrocínio garantido, estamos sem certezas totais quanto à participação… e não podemos no entanto descurar os treinos e toda a restante preparação. Inclusivamente, se necessário, envolvendo terceiros nesse mesmo processo e assumindo os encargos que daí advêm.

Este período também é muito difícil psicologicamente, pois os valores são elevados (ainda mais quando se leva uma equipa grande) e o seu desfecho não depende só de nós, não o controlamos totalmente, a nossa força, querer, vontade e coragem não são garante único de conseguirmos estar na linha de partida.
Ficamos muito vulneráveis, dependentes. Até porque vamos assumindo alguns custos que se algo corre mal podem ser “para o lixo”.

Depois, como costumo dizer, “o treino é que é duro, as provas têm que ser festa” e para esta festa o treino foi mesmo muito duro. Foram 10 meses de alguns momentos complicados em termos de logística familiar e profissional e de muita dureza relativamente ao tratamento que o corpo levava.

Esse esforço físico acumulado teve momentos difíceis, pois os picos de volume de trabalho e correspondente desgaste fizeram com que alguns dias e semanas fossem mesmo complicados. Mas eu sabia que estava bem orientado e que todo o esforço iria ter uma benefício mais tarde. Iria ser uma grande festa!

Portanto como podem perceber ainda o desafio está longe e já temos muitas partes difíceis para ultrapassar.Mas por entre estas e outras dificuldades chegámos à prova e aqui houve evidentemente muitas partes difíceis. Vou listá-las sem as quantificar.

Deixo ao vosso critério, à vossa imaginação, a tarefa de escolherem para vós a parte mais difícil de todas.

Assim, enquanto em prova, deparámo-nos com as seguintes dificuldades:

  • A distância total da prova, 1131Kms.
  • O calor em todas as ilhas durante os cinco dias, máxima de 42º.
  • A humidade relativa que juntamente com o calor era ofegante, média 82%.
  • Mar com tubarões, felizmente só se avistou um (e eu já estava fora de água).
  • Prova com estradas abertas ao trânsito; no segundo dia, no ciclismo, “perdi” mais de 46min parado em semáforos e em obras na estrada.
  • Maratonas feitas em total escuridão (3 das 5 forma feitas totalmente à noite).
  • Animais selvagens a “acompanhar-nos” durante a prova (perus, cabras, veados, cães, baratas, mochos, centenas de sapos, etc…). Particularmente assustador durante a noite.
  • Ventos cruzados na ilha de Maui e outros ventos fortes nas restantes ilhas.
  • As noites com pouco sono; na penúltima noite dormi 2h30m, na última noite dormi 1h45m.
  • Uma tempestade tropical com chuvada a condizer enquanto pedalava em estrada aberta logo no primeiro dia (a água que caia no alcatrão voltava para cima em vapor dificultando a respiração a quem queria pedalar…).
  • Os voos diários entre ilhas, com o necessário transporte de toda a logística e correspondente ansiedade de se a bicicleta chegava em condições ou não.
  • Ver Amigos a desistir e não poder fazer nada. Alguns em condições físicas preocupantes.
  • O cansaço acumulado pelos 226kms diários feitos nestas condições.

E o pior foi mesmo que estas dificuldades não se apresentaram de forma isolada, mas sempre em combinações e por vezes quase todas em simultâneo!!!!

Mas para muitas destas partes difíceis estávamos preparados, e bem preparados. Houve no entanto uma parte para a qual não estava de todo preparado.
Foi para a parte final da prova, para os últimos 5kms e para toda a carga emocional de saber que estávamos a chegar ao fim de uma aventura Épica e que ainda por cima o fazíamos desta forma, a vencer!
E aí custou-me muito não ter os meus filhos na linha de chegada, para aquele abraço. Emocionalmente estava muito baralhado… muito feliz e muito triste ao mesmo tempo.

E querem mesmo saber o que foi mais difícil para mim em todo este desafio?
Foi ler uma mensagem do meu filho na manhã depois da prova.
Dizia simplesmente: “Pai, ORGULHO!”
Desmanchei-me todo.

José Massuça

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